REVISTA ITEM - 83-84

Editorial - REFLEXÕES SOBRE OS EFEITOS MULTIPLICADORES DA AGRICULTURA IRRIGADA

A constatação dos efeitos multiplicadores da agricultura irrigada permeou as diversas atividades do XIX Conird. O cooperativismo, os arranjos produtivos e comerciais, a gestão dos perímetros públicos, a visão de grandes projetos como o Jaíba, com outorga de 83 mil litros por segundo, para atender a um amplo e diversificado leque de produtores, foram motivos de Dia de Campo, com reflexões também in loco.

Mas, sobre tudo isso, pairou a sombra da imprevisibilidade de uma dessas medidas de governo que só atrapalham, sem nada construírem, causando muita perplexidade, como retratado nesta edição. Trata-se de incluir a Caatinga como parte do bioma Mata Atlântica, o que fez redundar na paralisação de muitos projetos, inquietando toda a região do Norte de Minas. Para o melhor entendimento desse impasse, vale analisar as entrevistas com profissionais altamente capacitados, com autoridades do governo, empresários e produtores que estão sendo afetados por essa medida.

Mesmo diante dessa adversidade, afloraram exemplos de empreendimentos privados, com diferentes outorgas de uso de águas superficiais ou subterrâneas, entendimentos sobre como evoluir para bons negócios, com arranjos produtivos e comerciais calcados na agricultura irrigada, com muitas inovações que precisam ser exploradas e multiplicadas.

A reservação das águas, tendo à frente o histórico e os efeitos multiplicadores de represas, como a do Gorutuba, motivo de Dia de Campo do XIX Conird, trouxe à baila reflexões sobre o porquê de não fazer multiplicar muitas represas em favor da maior produtividade da água e do bem-estar das populações, investindo-se no melhor aproveitamento das águas das chuvas, fazendo-as mais produtivas antes de irem para o mar.

O acervo desses conhecimentos evidencia bons trabalhos, que despertam interesses e reflexões sobre como se iniciar, de forma prática e simples, na agricultura irrigada. Um dos melhores caminhos para o sucesso é fazer tudo bem-feito, ganhar segurança e evoluir para um próspero negócio, iniciando-o com módulos mais fáceis para serem implantados e implementados.

Assim, o cadastro do uso insignificante pode ser um facilitador, para que haja uma boa iniciação em qualquer tamanho de propriedade. Esse cadastro se limita a uma captação de até um litro por segundo e, em bacias hidrográficas com maiores restrições, até meio litro por segundo. Sem entrar no mérito dessas restrições, vale observar que os efeitos multiplicadores da agricultura irrigada podem começar aí, com projetos com até essas vazões, fazendo a diferença tanto para o pequeno como para o médio ou grande produtor. Significa poder trabalhar em torno de um hectare, com produção intensiva, capacitando-se para gerenciar atividades ao longo de todo o ano.

No amplo e diversificado universo de produtores e propriedades, o que se quer é o uso da água na irrigação em quantidade certa e nos momentos adequados, com mais produção e melhor qualidade, com a diminuição do perverso risco agrícola da agricultura de sequeiro. Isso favorece os mais diversos instrumentos de comercialização, a utilização dos produtos de seguro e de garantias dos contratos futuros.

Nesse bojo de reflexões, priorizar a aplicação dos recursos na agricultura irrigada, a exemplo dos da linha de crédito do programa “Mais Alimentos” faz emergir a lógica de um melhor ordenamento para fortalecer a agricultura familiar.

Sobre essa edição da ITEM, vale observar que a junção de dois números está trazendo uma visão mais ampla dos problemas a serem equacionados, como do impasse do bioma, das oportunidades para empreendimentos que podem gerar riquezas e abrir um amplo leque de postos de trabalho permanentes, a custos relativamente baixos quando comparado com outros investimentos e vários outros aspectos. Está aí uma das grandes vantagens da agricultura irrigada, como grande propulsora do desenvolvimento, sempre a requerer um tratamento melhor ao que lhe está sendo atribuído no Brasil.

Um cooperativismo que precisa ser aprimorado e permeado cada vez mais.



Helvecio Mattana Saturnino
Presidente da Abid