PETER LEE NO BRASIL

A visão internacional da Icid sobre a importância da irrigação e drenagem para a produção de alimentos

A Associação Brasileira de Irrigação e Drenagem (ABID), na qualidade de Comitê Nacional Brasileiro da International Commission on Irrigation and Drainage (Icid), tem tido a oportunidade de exercitar essa parceria internacional em congressos nacionais de irrigação e drenagem (Conirds), promovidos anualmente.

O XVIII Congresso Nacional de Irrigação e Drenagem (XVIII Conird), realizado 27/7 a 1/8/2008, em São Mateus, Espírito Santo, trouxe para o Brasil, a visão internacional de Peter Lee, presidente da Icid, que fez a conferência de abertura do XVIII Conird, e em um seminário promovido pela ABID e pela Câmara Setorial de Equipamentos de Irrigação da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (CSEI-Abimaq), em 5/8/2008, no auditório da Codevasf, em Brasília.

A seguir, a conferência de Peter Lee proferida nas duas ocasiões, com tradução feita pelo professor Luiz Lima, da Universidade Federal de Lavras (Ufla) e revisada por Helvecio Mattana Saturnino, presidente da ABID:



XVIII Conird - São Mateus, ES - Julho 2008
Investimento em Agricultura Produtiva
Peter Lee, Presidente da ICID.



Cumprimentos


'É um prazer estar de volta ao Brasil para participar do Congresso da ABID. A última vez que estive aqui foi em 2006, durante o Congresso em Goiâ. Fiquei imensamente impressionado com o que vi e ouvi. Pude perceber que o Brasil é um país com recursos e talento para alimentar o mundo ou, pelo menos, para suprir a falta de alimentos em muitos países. A Austrália, em particular, ficou muito interessada no que vocês estão fazendo e nas tecnologias adaptadas. Na África, eu tenho dito que eles precisam ver o Brasil como exemplo de como a agricultura pode obter novos níveis de produtividade.'

XVI CONIRD Goiânia, Junho - 2006

'Revendo o que eu disse em Goiânia, posso perceber que subestimei minha audiência. Falei da missão da Comissão Internacional de Irrigação e Drenagem (Icid) e do desejo de ter fortes organizações nacionais, em diferentes países, como porta-vozes da água e da agricultura, para usar esse 'guarda-chuva' da organização internacional e fazer convergir interesses do governo, das instituições de ensino e da pesquisa, dos produtores e dos fornecedores.'

'Bem, é claro, encontrei a ABID sob a forte liderança de Helvecio, que tem realizado muito bem todas essas tarefas. Isto tem sido uma grande inspiração para mim, em minha presidência. É pena que poucos, em nível internacional, tenham conhecimento do que está sendo feito no Brasil. Bem, asseguro que agora eles estão bem mais informados, principalmente após o prêmio WatSave aos brasileiros Werner e Herbert Arns pela tecnologia destaque em economizar mais de 50% de água ao irrigar arroz com pivô central. (O WatSave Award 2007 foi conferido aos primos Werner e Herbert, de Uruguaiana, RS, pelo trabalho de 10 anos, em constante evolução de mudanças da irrigação por superfície para aspersão, com pivô central, com diversos melhoramentos no sistema produtivo do arroz e na melhor utilização das áreas ao longo do ano, maiores possibilidades de utilização do sistema Plantio Direto e seus fundamentos, conseguindo-se o dobro de produção do arroz com a mesma quantidade de água utilizada na irrigação por inundação).'


Obs: Utilize os tópicos abaixo para navegar pelo texto da palestra.

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TÓPICOS DA PALESTRA

1 - Muita coisa mudou nos últimos dois anos!
2 - Uso de água pela agricultura
3 - Uso ineficiente da água?
4 - Tudo refere-se a armazenamento
5 - Manejando a umidade do solo
6 - E a água virtual...
7 - Começo da Segunda Revolução Verde
8 - De onde virá a produção extra?
9 - Precisamos de tecnologia?
10 - O que queremos dizer com tecnologia?
11 - Que tecnologia pode trazer uma revolução verde?
12 - Então, que tecnologia ligada à água pode trazer a segunda revolução verde?
13 - Barragens
14 - Melhorando a tecnologia
15 - Conclusões

 






 






 






 


Muita coisa mudou nos últimos dois anos!

'Muita coisa mudou nos últimos dois anos. O aumento nos preços dos grãos encerrou um longo período, quando os preços dos produtos agrícolas estavam em declínio.

Há também o aumento no interesse por biocombustíveis e o mundo todo está atento à liderança brasileira na produção de etanol, a partir da cana-de-açúcar. Da última vez, expressei meu interesse pela experiência brasileira neste tema e quero aprender mais, mas não vou falar sobre isto hoje. Quero me focar em água para produção de alimentos.

Podemos dizer que os aumentos em preços agrícolas já eram esperados. Eu disse em Goiânia sobre a previsão de que, em 2006, o Relatório das Nações Unidas para o Desenvolvimento Mundial da Água havia indicado a necessidade de um aumento em dois terços na produção mundial de alimentos nos próximos 25 a 30 anos, e que um imenso desafio foi estabelecido. Mas, naquela oportunidade, poucos se preocuparam com esse desafio e a atenção do mundo foi focada em outros aspectos.

Por exemplo, a evidência está nas metas de desenvolvimento do milênio pelas Nações Unidas (MDGs), que têm por objetivo reduzir a pobreza, doenças, mortalidade infantil e melhorar a educação, igualdade de condições, saúde maternal e sustentabilidade ambiental, mas a água somente é citada em conexão com o número de pessoas com acesso à água potável e ao saneamento básico. Na verdade, a água para consumo e o saneamento tomaram toda a atenção da agenda água.

Mas se precisamos de 15 L/hab./dia, para consumo e saneamento básico, necessitamos 1.500 L/hab./dia (100 vezes mais), para produzir alimentos e sobreviver. As MDGs mencionaram os alimentos somente em conexão com a redução da pobreza extrema e da fome e não como um estratégico fator a ser considerado, para que se consiga a sustentabilidade ambiental. É como se as MDGs considerassem simplesmente que basta ter dinheiro para comprar comida, sem, no entanto, se preocuparem se temos recursos para produzir alimentos.

De fato, espera-se que a agricultura venha a reduzir seu uso de água, para que outros usos possam ser atendidos. Estes outros usos são mais virtuosos, porque incluem água para consumo humano e saneamento básico.'

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Uso de água pela agricultura

"A agricultura é criticada, porque é a maior usuária dos recursos hídricos disponíveis. Mas, se a necessidade básica para produção de alimentos é 100 vezes maior que a do consumo humano e higiene, é talvez surpreendente que a agricultura use somente 75% desse recurso global, ao invés de 99%.

A razão é clara, a agricultura usa água que outros não usam, começando com a chuva, que não é computada como recurso hídrico disponível ou como alguns chamariam “água azul”. De fato, a agricultura usa ambas as águas, verde e azul (e algumas vezes cinza também), mas é pelo uso da água azul que a agricultura tem sido criticada.

Mas NÃO HÁ EQUIVALÊNCIA entre os volumes usados para uso doméstico e industrial, que têm que ser garantidos com altos níveis de certeza, e os volumes maiores, freqüentemente incertos, que são alocados para agricultura. Que cidade toleraria o suprimento de água em apenas algumas estações do ano, ou em outras palavras, três anos em cada quatro?"

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Uso ineficiente da água?

"Constantemente nos é dito que a agricultura é ineficiente na utilização da água e, por mais de 10 anos, a Icid tem promovido a necessidade de economizar água através do Prêmio WatSave que mencionei antes. Mas ser mais eficiente não é o bastante, temos que ser mais produtivos: 'mais produção por gota'. Maiores eficiências e economia têm seu lugar, mas temos que ser cuidadosos, para não ser tão aquacêntricos: a ICID tem que buscar contexto mais amplo, com o propósito de manejar a água para uma agricultura sustentável."

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Tudo refere-se a armazenamento

"Como hidrologista, considero muito útil pensar em armazenar água. Embora acredite que a definição de água azul e verde seja arbitrária, ela nos ajuda a definir duas das principais áreas, para as quais precisamos direcionar a produtividade."

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Manejando a umidade do solo

"Manejar a disponibilidade de água na zona radicular é central para todo o processo. E aqui está um slide que uso para ilustrar isso, com figuras que vocês podem reconhecer dos dias de campo do XVI Conird. Irrigação e drenagem são essenciais para manejar o armazenamento na zona radicular e, em termos mais abrangentes, é possível pensar a irrigação como manejo da água no solo em diversas maneiras. Isto é importante, porque inclui tecnologias informais como controle de enxurradas e inundações, bem como tecnologias mais formais que tradicionalmente imaginamos como sendo irrigação."

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E a água virtual...

"A água necessária para viabilizar os produtos é a água virtual (um termo cunhado pelo Prof. Tony Allen há mais de dez anos, e quem, este ano, será agraciado pelo seu trabalho com o Prêmio Estocolmo de Água). Os volumes de água armazenados e utilizados para produção de alimentos são consideráveis: aproximadamente uma tonelada de água para cada quilograma de arroz. É esta água virtual que nos permite comer na entressafra, comer dos estoques, quando a colheita falha, alimentar com produções viabilizadas com a água de outras regiões e de outros países que têm o incentivo financeiro para isto. São os meios pelos quais os consumidores urbanos têm acesso à água usada para produzir alimento, no nível básico de 100 vezes aquele que eles precisam para dessedentação e saneamento.

Tudo isto para alimentar o mundo; tudo parte de 'água e agricultura para acabar com a pobreza e a fome', tópico que a ICID está coordenando para o próximo fórum mundial da água, em Istambul, em 2009."

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Começo da Segunda Revolução Verde

"Este fórum, o último foi realizado no México, em 2006, verá a publicação do próximo Relatório de Desenvolvimento Mundial da Água das Nações Unidas. O último previu a necessidade de crescer a produção de alimentos em dois terços, a expectativa para o próximo é que aponte para a necessidade de dobrar a produção mundial até 2030, efetivamente outra “revolução verde”.

Como vamos chegar lá? Bem, primeiro aumentando os preços que os produtores recebem por suas produções.

Agora isso está acontecendo e, onde moro, os produtores têm sido rápidos em buscar os subsídios e dedicarem-se a plantar cada hectare disponível. Sem dúvida, os preços vão-se ajustar assim que a produção extra chegar ao mercado, mas alguns fatos que formam os precursores desses aumentos permanecerão, como: aumento da demanda e produções estagnadas, aliadas aos baixos níveis dos estoques e a uma relativa pequena proporção do que é produzido sendo comercializada no mercado aberto. Mas não é provável que vejamos a era dos preços baixos, como é improvável o retorno aos menores preços para o petróleo.

A razão para isto é que, para uma indústria universal, poucos são capazes de mobilizar e conseguir as produções necessárias para outra revolução verde. Em muitos outros países, incluindo o meu, terra e água têm sido alocadas para outros usos e nunca retornarão ao uso agrícola. Alguns países resistirão em aproveitar as oportunidades de mercado, não repassando preços maiores aos seus produtores, para proteger os consumidores urbanos (e eleitores) desses aumentos, reduzindo os incentivos e as disponibilidades de recursos financeiros disponíveis aos fazendeiros para que possam investir em maiores produções."

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De onde virá a produção extra?

"Então, de onde virá a produção extra necessária? É improvável que venha de aumentos gerais na produção, não na quantidade que precisamos que é mais que dobrar em 20 a 25 anos. Os aumentos virão de países como o Brasil, que tem capacidade para aumentar sua produção e comercializá-la.

Minha referência à capacidade para comercializar é deliberada. Muitas organizações envolvidas em nossos negócios, especialmente internacionais como a ICID, têm passado por longos períodos de boa disponibilidade de alimento e têm visto a agricultura como de subsistência, com atividades desenvolvimentistas. Isso mostra que a agricultura é o principal caminho para sair da pobreza rural e que é fonte de sobrevivência.

Antes dos últimos aumentos nos preços, segurança alimentar podia ser obtida por comercialização, comprando a preços exorbitantes no mercado mundial ou aumentando os níveis de produção nas fazendas existentes.

Mas muitas fazendas produzem menos de 2 t/ha e o fato brutal é que muitos produtores precisam dar lugar para aqueles que conseguem produzir de modo economicamente viável. Isto vai permitir a consolidação da posse das terras e atrair novos capitais para essa atividade, atacando a pobreza rural por meio de aumento de empregos, ao invés de fazer perpetuar a agricultura de subsistência.

Se isso parece muito contencioso, eu proporia não tomá-lo como um caso de produção comercial versus uma abordagem sobre subsistência, mas permitir a coexistência de ambas de alguma maneira. Alguma parte da agricultura, não somente em países em desenvolvimento, permanecerá como de subsistência permitindo bem-estar e segurança alimentar para as comunidades, enquanto outros sistemas (provavelmente demarcados no nível propriedade e água) terão o foco na produção como segurança nacional ou mesmo mundial.

Numa era de elevados preços no mundo, países que não encorajarem suficientemente a agricultura comercial terão que pagar um alto preço.

Será difícil compatibilizar o atendimento dos objetivos da agricultura comercial com os de subsistência. Mesmo na Europa, reconhecemos que existem áreas que são adequadas a altas produtividades agrícolas, e outras que não são. Mas por razões da economia local, culturais e até mesmo ambientais, não queremos ver a agricultura desaparecer em áreas menos produtivas. Então, vamos ter duas abordagens e focar, no momento, na agricultura produtiva e no investimento necessário para atender a crescente demanda mundial por alimentos nos próximos 20 a 25 anos."

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Precisamos de tecnologia?

"Quando vim ao Brasil, a última vez, em 2006 havia estado no Congresso Internacional de Grandes Barragens (Icold), em Barcelona, e fiquei espantado com a maneira pela qual uma comunidade que construiu uma represa continuou a ter fé em tecnologia e foi recompensada por sua própria revolução, na forma de tecnologia de concreto compactado por rolo (RCC). Tendo visto a tecnologia RCC, os membros do Icold perguntavam: qual será a tecnologia que virá depois da próxima revolução?

Em contraste, muitas comunidades pró-água para alimentos parecem ter perdido a fé na tecnologia e acreditam que o manejo é agora mais importante do que a tecnologia.

Vindo para o Brasil em 2006, impressionei-me como os produtores do Cerrado abraçaram a tecnologia como meio de aumentar rapidamente a produção e estavam dispostos a arriscar um capital considerável para isso. O principal exemplo em evidência foi a expansão do uso de pivô central, mas existem outras tecnologias envolvidas que eu ainda vou comentar.

A batalha para que as pessoas busquem a tecnologia não é nova. Em 1987, a ICID juntou-se a outras instituições para formar a rede do Programa Internacional de Tecnologia e Pesquisa em Irrigação e Drenagem (Iptrid), inicialmente com base no Banco Mundial e agora na FAO, para promover maiores investimentos em pesquisa tecnológica em água. Ao longo dos anos, o Iptrid esforçou-se para reter seu foco em tecnologia e, num determinado momento, retirou as palavras tecnologia e pesquisa em favor da capacitação. O grupo consultivo do Iptrid, do qual sou presidente, resistiu a isto e, agora, a pesquisa está forte no comando, mas a comunidade que banca o Programa parece ter pouco interesse nas soluções tecnológicas e os fundos para o Iptrid continuam precários. Talvez devêssemos mudar para o Brasil."

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O que queremos dizer com tecnologia?

"Um problema é que as pessoas têm uma visão muito estreita do que é tecnologia. De acordo com o dicionário Oxford, tecnologia é, antes de tudo, 'a aplicação do conhecimento científico para propósitos práticos'. Um segundo significado é 'máquina e equipamento baseados no conhecimento', o que muitas pessoas acreditam, mas que é uma visão estreita, se tivermos que pensar numa revolução."

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Que tecnologia pode trazer uma revolução verde?

"Depois que retornei dos Congressos da Icold e da ABID, em 2006, perguntei-me: '- qual é a tecnologia que poderia trazer a segunda revolução verde' e '- qual a tecnologia que trouxe a primeira revolução verde'? Lembrem que a primeira revolução teve como principal propósito retirar a Ásia da fome e, no processo, duplicar a produção mundial de alimentos. Essa revolução não dependeu somente das novas variedades de trigo e arroz, mas muito mais da mobilização maciça na busca da nova água, por meio do desenvolvimento da exploração de águas subterrâneas.

Se o desenvolvimento da exploração da água subterrânea foi a tecnologia da água depois da primeira revolução verde, que lições podemos tirar para nos ajudar a identificar a tecnologia ou as tecnologias que trariam a próxima revolução:

1. Água subterrânea não é nova, ela tem sido usada pela agricultura há milhares de anos,

2. A água subterrânea não foi perfeitamente trabalhada: muitos poços duraram pouco e foram operados com baixa eficiência energética,

3. Mas o controle da água ficou nas mãos do dono do poço, usualmente o produtor rural,

4. A água foi disponibilizada a um custo que levou o produtor a conservá-la, para obter maiores produtividades,

5. A água possibilitou a introdução com sucesso das novas variedades e fez multiplicar outras tecnologias,

6. Nós fomos lentos para absorver a natureza revolucionária do que estava acontecendo. Em decorrência dessa falta de percepção, permitimos políticas de subsídios e , em alguns lugares, energia de graça. Isso tende a ignorar os benefícios de colocar o controle e a responsabilidade pelo custo nas mãos dos produtores, o que favorece a uma desordenada e exagerada exploração da água."

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Então, que tecnologia ligada à água pode trazer a segunda revolução verde?

"Então, o que será a força motriz (nova água subterrânea), que irá revolucionar a produção de alimentos, duplicando-a até 2030?

Tenho pensado nas dez maiores possibilidades para os últimos dois anos e tenho escrito sobre isto no Boletim da Icid. Depois dos dois ou três primeiros itens dessa lista, a ordem não é muito clara, e espero que eventualmente outras tecnologias (como plantio direto, culturas tolerantes à seca e à salinidade) possam ser agrupadas em tecnologias gerais de maior significado. Se alguém tem visão de possíveis tecnologias ou outras que possam revolucionar a produção na agricultura, gostaria de conhecê-las. Para isso, temos que formar uma lista.

Várias tecnologias estão marcadas com asterisco na lista para mostrar que já receberam o prêmio WatSave por expressivas economias de água. Isto inclui o controle de drenos, o indicador de frente de molhamento e a produção úmido-seco de arroz que já proporcionou gigantesca economia de água na China. E há a premiação do último ano, para a irrigação de arroz via pivô central, do Brasil, e pela África do Sul, que usou a mensagem de texto (SMS) e outras formas de comunicação, para economizar água em pequenos plantios de cana-de-açúcar.

Mas, olhando as tecnologias que podem estar no topo da lista, um atributo-chave para dar suporte a exploração da água na revolução verde foi o de um suprimento confiável da água nas mãos do produtor. Outras tecnologias, tais como o gotejamento e o pivô central, só se tornariam viáveis, se o produtor tivesse uma fonte segura de água. Poucos produtores investiriam em tecnologias caras sem ter o suprimento garantido de água para irrigação. Portanto, coloco os sistemas de emissão, como gotejamento, pivô central e aspersão, como tecnologias posteriores às de garantia do suprimento de água."

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Barragens

"Primeiro, pensei no controle de grandes sistemas de canais, tais como os dispositivos de controle total do canal (TCC) adotado na Austrália e agora nos Estados Unidos. Mas o que vi aqui no Brasil, em 2006, foi mais excitante. Foi o armazenamento de água na propriedade, com barragens, para aproveitar a estação chuvosa e investimentos complementares ligados às tecnologias que proporcionam maiores economias de água.

Quanto mais falo da importância de armazenar água na propriedade, mais vejo seu uso como fonte primária ou como meio de regular o suprimento de água para outra captação.

No Reino Unido, produtores estão sendo restringidos de retirar água dos córregos nos meses de inverno, e produtores meus vizinhos dependem de reservatórios revestidos para assegurar suas necessidades de água para irrigação no verão. Na Itália, existem reservatórios sendo construídos para reutilizar a água que sobra da irrigação e da drenagem. Reservatórios construídos e controlados nas vilas, são muito comuns no sul da Índia e na zona árida do Sri Lanka.

Claramente os reservatórios não estão sem os seus problemas e sem limitações, mas em muitas áreas do mundo, especialmente nas do complexo básico da África, América Latina e Sul da Ásia, que têm recursos limitados de água subterrânea, os reservatórios nas propriedades podem ser os principais elementos da próxima revolução verde."

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Melhorando a tecnologia

"O principal objetivo de ressaltar tanto a tecnologia é levar as pessoas a pensarem em como isto pode ser implementado mais efetivamente. Um problema fundamental dos reservatórios de superfície é como lidar com chuvas intensas e o custo de ter um vertedouro apropriado.

Uma solução oferecida foi de meus contatos na comunidade que constrói barragens, de um engenheiro francês, François Lemperiere. A solução proposta para barragens de baixo custo na África é o vertedouro tipo teclado de piano ou o de concreto fuse-plugs. Há outros como os fuse-gates que são mais complicados e caros, mas essas são tecnologias não patenteadas que teriam grandes aplicações em barragens no Brasil.

O vertedouro tipo teclado de piano trabalha aumentando o comprimento efetivo de um vertedouro em três a quatro vezes. O vertedouro tipo fuse-plug é formado por uma série de blocos que, em condições de alta vazão, se inclinam aumentando a capacidade de vazão, enquanto antes das cheias permitem que maior volume seja armazenado do que com vertedouros fixos.

Mais detalhes desses vertedouros estão disponíveis no site http://www.hidrocoop.org. O Dr. Lemperiere terá prazer em atendê-los.

Pequenas barragens constituem a tecnologia que acontece no Brasil, reforçada por uma contextualização mais globalizada, que atrai novas idéias de como torná-las mais efetivas e geradoras de outras tecnologias."

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Conclusões

"Por causa dos preços altos, o mundo está acordando e entendendo que o papel da água na agricultura não é menos vital do que a água para consumo humano e higiene.

Temos que explicar que a agricultura usa água que outros não conseguem usar e, enquanto lutamos para ser mais produtivos, a demanda por alimentos e por outros produtos agrícolas supera a oferta e, por isso, precisamos de uma segunda revolução verde.

O problema não vai desaparecer se pararmos de investir em biocombustíveis. Vamos precisar de tecnologias de suporte e implementação de mais controles e responsabilidades para os fazendeiros. A evidência do Brasil e de outros lugares mostra que os reservatórios nas fazendas proporcionam isso e multiplicam outros investimentos em tecnologias de conservação de água a jusante.

Aplicando conhecimento científico para objetivos práticos (isto é, tecnologia num sentido geral) podemos aumentar a produção em mais de 100% nos próximos 20 a 25 anos. Permitir que a agricultura floresça comercialmente é o primeiro passo para que haja os investimentos necessários. Mas sempre haverá necessidade de desenvolvimento na agricultura de subsistência. Os objetivos de produzir e desenvolver são diferentes e isto leva a uma dualidade, não assegurando uma agricultura produtiva, mas reconhecendo que alguns sistemas podem ser muito produtivos e atrair investimentos, enquanto outros não, pois precisarão de assistência para seu desenvolvimento.

Estou satisfeito de estar de volta ao Brasil e ansioso para ouvir novos exemplos em como este País não está somente mostrando suas oportunidades na agricultura produtiva para ser uma superpotência mundial em alimentos, mas também como potência para se projetar como fonte de tecnologias e talentos que podem revolucionar a produção mundial de alimentos."

Obrigado.

Peter Lee

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